Vi um homem separando ossos para o jantar. Vi senhores de sua miséria contemplando uma perna quebrada e a falta de jeito de uma moça em arrastá-los até o carro que os esperava. Eu vi. Onde nascerá meu contraponto à realidade? Onde se farão presentes os rostos amigos para um último abraço com toda a felicidade que o amor fraterno conforta? Eles estão para casar; eles, queridos amigos, estão a partir, mas não consigo deixar de pensar nos ossos e como estavam tão imaculados na sua brancura. O jantar de cada um demarcando a revelia de seu destino. Sinto meu coração partido com todos esses fatos.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
#12: Construção de personagem
Quantos milhares de quadros na História (e outros mais que houverem) retratam a beleza da mulher assim, entre a inocência do sono ou descanso e a libidinagem que sua nudez desperta. Mulheres, de muitas formas e belezas, num deleite do prazer onírico, com um sorriso vestigial no rosto, a pose relaxada, além de um sempre conveniente pano ( um lençol) a cobrir detalhes plácidos de sua carne. E eis-me aqui a contemplar tal imagem em silêncio e, voltando à evocação das pinturas clássicas, como muitos mostram, me imagino, na visão de um observador exterior à cena, posto a um canto, encaixado na ótica do subterfúgio próprio dos voyuers, bisbilhotando algo proibido, secreto, mas ao mesmo tempo com um poder de atração sem igual, tornando inevitável, a apreciação da beleza feminina sem o conteúdo do toque. Além da vista apenas a imaginação tecendo nós entre as fantasias que as linhas corporais despertam. Fantasias que acompanham o contorno dos pés, das pernas e sua harmonia com os quadris, subindo então às costas e o encaixe de todo o peso na cama, a distribuição da volúpia sendo alterada na percepção do desejo. E entre a vertigem e a saciedade, gravo na memória o momento alimentando a produção de significados.
#11: Construção de personagem
O dia e hora em que nos veremos sem muita graça para algo além de um abraço e desejos de boa sorte pode está tão longe quanto o prenúncio de uma solidão espontânea, vislumbrada na vontade de manter portas e janelas fechadas para tudo lá fora. Quem saberá, enfim. Escondo retratos e cartas em gavetas que sei fora de uso para não me contaminar com essa saudade que entrou sem bater com as poesias de Vinícius de Moraes. Como pôde ele tão abusado antever sentimentos tão comuns; sentimentos que porventura sejam a nós, homens, puro reflexo de uma ansiedade amorosa, de conquista, dominação e despojo? Porque o olhar masculino se verte em olhares, em pisares que remetam a uma parte da infância antiga, quando o gosto feminino era apenas suposição de uma constância sentida numa brincadeira qualquer que se repetia, se repetia... Queima a pele essa vaidade que me veste pra disfarçar o desassossego que a fome desperta, numa inevitabilidade semelhante ao avanço das ondas ao entardecer.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
#10: Construção de personagem
Morar numa cidade é algo realmente tenso. A convivência com pessoas é uma experiência cansativa e irritante. Procurei por autores desconhecidos na internet como distração. Encontrei dois títulos atraentes: Manual da Liberdade Pagã, escrito por Donald Schiffer, ensaio que discorre sobre a memória antiga do homem sobre rituais e sentimentos coletivos quanto à salvação e felicidade, seja através da sensação religiosa, seja na implementação frutífera do plantio e colheita de alimentos essenciais, e como isso se reflete em nossas expectativas e criações inconscientes de um estado de satisfação e bem-estar pessoal. O outro livro chama-se O Assassino de C. Bale, de Damien Price, romance narrado em primeira pessoa que conta os dias subsequentes à morte de uma estrela de Hollywood. Na verdade, o personagem faz uma grande dissertação sobre a indústria de celebridades, como a imagem é um produto valorizado e explorado em nossa cultura ocidental e como esse processo é absorvido pelo cidadão comum, a quem cabe, na visão da indústria, apenas o papel de consumidor passivo. Pesquisei sobre os autores, mas quase nada encontrei. Estariam vivos? Fiquei tentado a incluí-los no meu passatempo favorito, criar biografias imaginárias.
#9: Construção de personagem
Estou naufragando. Estou naufragando em um milhão de lembranças, cheiros, gostos, sensações, incomunicabilidades. O presente em si ou as pesssoas do presente estão me cansando profundamente. Pensei que seria possível encontrar caminhos diferentes de ser; maneiras diferentes de construir história sem superficialidade nas intenções. Tudo, enfim, está morto.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
#8: Construção de personagem
Chove agora, causando uma pressa maior nas pessoas e o congestionamento pelas ruas. Observo todo o movimento da varanda. Alguns moradores próximos chegam entre confusão de sacolas e roupas molhadas. No apartamento defronte, não há o mínimo trânsito de pessoas pela sala. A janela aberta, aliás, que permite minha visão, deixa entrar água em abundância. Pela televisão desligada vejo reflexos de poças d'água ao lado do sofá. Não sei quem seja o morador ou moradora. Imaginei o silêncio lá, quebrado apenas pelo som de móveis dilatando com o frio e a eventual passagem de um inseto pela louça na pia. Enquanto isso, poucas pessoas pelas escadas. Talvez haja alguém que tenha voltado para casa quando deparou com a chuva, abandonando as chaves do lado de fora da porta ainda... Adivinhar uma existência exterior a minha é um exercício bom para elaboração do enredo.
#7: Construção de personagem
Estávamos deitados no escuro, em face um do outro, ouvindo uma música que vinha de fora. Uns acordes preguiçosos, com arranjos de cordas acompanhando a guitarra durante o refrão, letra cerebral demais. Ela pergunta o que está acontecendo. Como posso responder se não estou presente nos melhores momentos da minha vida? Não me concentrava na melodia, exatamente. Abstraía quanto a novos dados e metodologia a serem explorados na pesquisa, uma redefinição do tema. Além da idéia para uma peça de teatro. Nasceu assim: um sonho em que eu era morto durante um assalto ao ônibus em que estava no Rio de Janeiro. The Backyard of My Life mostraria um homem sentado numa cadeira enquanto as folhas secas do outono caem ao seu redor, dando ares de despedida e reflexão. Sucessivamente, personagens vários aparecem e sentam ao lado dele, dialogando sobre o passado e perspectivas sobre coisas que não acontecem. É meio onírico, porque você não sabe se ele está sonhando ou efetivamente morreu e presta contas com sua vida. O significado que ela tem, os símbolos inseridos nela. Sei que preciso aprofundar o conteúdo, embora as categorias de entendimento indicadas me pareçam suficientes. Diante do meu silêncio, ela indaga outra vez o que está acontecendo. Eu simplesmente não sei.
sábado, 14 de novembro de 2009
#6: Construção de personagem
O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado. O amor é passado.
#5: Construção de personagem
Tenho este projeto, dividido em três partes. Ainda não defini um nome para a série, embora cada livro já tenha título pronto: A Liberdade Assistida, A Bomba Cansada, A Própria Revolução. Venho maturando a concepção narrativa há aproximadamente quatro anos, ainda que de forma concorrente com outras sinopses. Serão apropriamente romances: o primeiro, com contornos definitivos, será elaborado após a conclusão de minhas novelas, que vão a prelo ano que vem reunidas em volume único, provisoriamente intitulado Entreamores. Por enquanto não sei apenas a dimensão e profundidade do apelo científico e fislosófico que a trama deve conter. Se deixo espaço maior para conversações ou descrições sintéticas dos lapsos temporais que serão abrangidos. Enfim, registro a sinopse mais tarde aqui. Ou não.
#4: Construção de personagem
O sentimento de esforço explicado como um fim em si me perturba profundamente. Qual seria o objeto sem causa do usufruto de todo empenho, seja físico ou cognitivo? Qual, afinal, valeria a pena nesses termos? Tenho observado que, entretanto, essa razão é a que se aplica no funcionamento do mundo ultimamente. Um mundo sem reflexão. Ontem sentei-me e olhei distraído para pássaros e pessoas, todas tão apressadas, perdidas e tolas. Era parte daquele quadro, um tolo também, de vozes e gestos sem importância, um palhaço a não ser levado à sério. Porque eu não me exigia; porque eu não me existia.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
#3: Construção de personagem
Pergunto-me porque ajo pela manutenção do status quo de maneira tão desavergonhada. Eu fico de canto até que a roupa de caçador seja apropriada o bastante no meu corpo e eu siga minha vontade de carregar a arma e disparar. O corpo faz, mas a mente silencia. Qual parte seria mais hábil para definir minha identidade? O intelecto é soberbo e sôfrego, instantâneo no jeito de gravar imagens, palavras e pessoas. Sei que o corpo é apenas o corpo, sem extensões. Sou isto então: a soma de cada miséria. De cada tique, vírgula e separação. A moça tatuada parece concordar comigo. Ela olhava-me à distância. Com seus olhos fundos. Fixados em mim, pareciam cavar reminiscências que eu mesmo ignoro. Fujo do combate, fico apenas com sua pele tatuada na cabeça, os lábios frágeis, de dizer muito pouco sem contato. Agora, mantenho sensações por memória por no fim sua pele, tatuada ou não, não deixou de ser apenas parte do corpo. De todo um corpo, imaginário assim.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
#2: Construção de personagem
Chego a novas categorias de estudo e contemplação com muito esforço. Às custas de abstração midiática e teórica advindas de leituras fragmentadas, e por vezes parciais. Estou imerso em todo processo. Isso se reflete de um modo estranho no meu jeito frio, afastado de calor humano. Talvez eu esteja destruindo as relações que me sobraram com insensatez e vulgaridade de modos. Não querem isso; ninguém quer. Não me querem. Parei hoje após o almoço diante de seus olhos e a única resposta que consegui foi um beijo meio sem graça no canto dos lábios. Depois, o silêncio e os passos lentos pela escada. Fui diminuído na vontade de relevar os problemas justamente por serem ocasionais e imperfeitos ao causar desgosto. Jogo para fora palavras que ferem como lâmina na carne. Elas não servem e nem mesmo devem reverberar com a consistência de um alcance real do inconsciente. Por isso me assusto. Por isso olho para os lados constantemente, onde quer que eu esteja, e não sossego nessa fantasia conspiratória de captação da minha revolta. Essa desconcentração me afeta profundamente: perco de vista as expressões que acompanham os conselhos premonitórios que me dão. As contorções bucais, um revirar de olhos, as mãos definindo o tamanho de cada frase. Qual não seria a satisfação totalizante de um sonho realizado ou ainda a concentração produtiva de uma ambição que não zombe de suas próprias custas? O que mais quero agora são satisfações totalizantes.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
#1: Construção de personagem
Hoje é um dia quente como todos os dias estão. Trabalhei nos últimos tempos categorias sociológicas de maneira impertinente. Tenho-me tornado chato. De verborragia irregular, irreverente, inconveniente e tantas outras negações de prazer qualquer. Penso no corpo como meio de construção da identidade social do indivíduo: a busca pelo aperfeiçoamento físico como um fim em si, a perda do livre-arbítrio e da consciência crítica, a auto-destruição como fuga e não como caminho para reflexão de percepções exteriores. Não nos aprofundamos com medo de naufragar. A boa imagem do barco se repete várias vezes. Talvez por evocar a extensão do trajeto e a variedade de rotas.
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